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os dias e as horas - blog do alberto guzik


Fashion victim

Fashion victms, as vítimas da moda, então entre as figuras mais engraçadas da cidade. Não só desta, acho, mas de todas as cidades. Aqui na minha área, que foi durante muito tempo um bairrinho pacato de classe média e de repente virou uma área fervida, cheia de resturantes, de clubs, de bares, com shopping a pouca distância, as fashion victims são encontráveis com muita facilidade. Acabo de ver uma. Foi interessante. Almocei com minha mãe, que mora no Centro, ao lado da Biblioteca Municipal. Saí da casa dela e subi até o início da Augusta, onde ainda se chama Martins Fontes, pra pegar o busão. Ia dar aula, então subi até o ponto que fica na altura da interseção com a Peixoto Gomide, pra então descer a pé a Frei Caneca até o shopping. Adoro andar a pé. A vítima da moda estava no ônibus. No calor da tarde vestia calça jins azul escura bem justa e grudada na perna, uma camiseta preta bem colada no corpo e uma jaqueta jeans com apliques de couro preto. Uma corrente prateada no pescoço e outra corrente brilhante e grossa presa no passador fronteiro da calça, que circundava para desaparecer no bolso traseiro direito. Alguns anéis prateados completavam o conjunto da obra. Óculos escuros tipo homem-aranha, daqueles que tapam totalmente a área dos olhos e suas laterais. Cabelos cortados tipo moicano, repuxados para o alto da cabeça, mantidos espetados por algum gel meio brilhoso. E sapatos pretos de couro. Muito estreitos e de bico quadrado e beeem fino. O menino deveria ter uns vinte e poucos. 
Estava bem ao meu lado no busão quase vazio do sábado à tarde. S saltei dois pontos depois de embarcar. E o garoto desceu também na parada da Peixoto. E foi caminhando na minha frente, descendo a Frei. Pensei que ele ia entrar no shopping, como eu. E não deu outra. Dei uma passada na farmácia do SFC antes de subir pra aula. Precisava de spray de própolis. Desde a última gripe, a minha anda meio detonada. Estava pagando a compra quando vi o garoto de preto e azul junto de outro caixa. Comprou alguma coisa e saiu. Quando estava me dirigindo pras escadas rolantes, vi o guri sentado em um banco do corredor, em frente a uma ótica. Ele havia tirado um dos sapatos e, muito absorto, aplicava um bandaid no calcanhar. Tadinho. O sapato estava fazendo bolhas. Não podia ser mais moderno o desenho do calçado. Mas estava acabando com os pés do cara. Subi rumo a minha aula, lembrando de um sapato de verniz preto que eu tive quando minha idade deveria regular com a desse garoto de hoje. E o meu também acabava com meus pés. E eu insistia em usar mesmo assim. Comprava bandaid e lá ia eu pisando firme. Como a gente é besta, meu deus! Hoje o mandamento primeiro de uma roupa pra mim é conforto. Se estiver na moda, melhor. Mas ter bolhas pra usar o sapato que todos os fashionistas estão usando, jamais. Ainda bem que a gente aprende alguma coisa com a idade.



Escrito por alberto guzik às 15h58
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Sra. Ritchie?

Outro dia vi Guy Ritchie, o cineasta inglês que se casou com Madonna e é pai de seu filho, dando uma entrevista. O homem se comportava quase como um machão de anedota. Cada resposta que dava era uma afirmação de sua testosterona. Sabe aquele tipo pra quem não se pode falar "Nossa, que pensamento sensível", porque isso pode ser tomado como ofensa e virar motivo de briga de murros? Foi mais ou menos assim que ele agiu na entrevista. E daí perguntaram alguma coisa sobre Madonna. E ele fez questão de responder que a Sra. Ritchie isso e aquilo. Gente, será que ninguém avisou o cara que, com exceção de seu círculo de chegados e de seus amigos de pub, tão machões quanto ele, ele é que é o Sr. Madonna, e não o contrário? Será que ele tem alguma fantasia de que algum dia Madonna se converterá numa mera Sra. Ritchie? Pensando bem, por outro lado, precisamos dar um desconto pro cara. Afina, de ilusão também se vive, né, Sr. Madonna?

Escrito por alberto guzik às 15h56
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Azul

"É... você que é feita de azul / Me deixa morar nesse azul / Me deixa encontrar minha paz"

                                                                         Tom Jobim/Vinícius



Escrito por alberto guzik às 10h11
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Briga com pirulito

Terminei as aulas da tarde na escola e tinha uma janela antes das aulas da noite. Aproveitei pra comprar um sanduba do Subway, que é bem gostoso, e pra tomar um suco de açaí com laranja e banana. Ainda tinha mais aulas à noite e, saído daquele gripão da semana passada, precisava me alimentar. Com o texto de “Divinas Palavras” aberto a minha frente, instalado numa mesinha da praça de alimentação do SFC, fiquei pensando enquanto comia nos textos e nas intenções das falas do Pedro Gailo.

Foi quando tirei os olhos do texto que vi os dois. Jovens. Entre os 25 e os 30, provavelmente. Bem vestidos, com calças de grife, camisetas bacanas, tênis da hora. Um deles negro, o outro mulato claro. No negro, uma camiseta preta e bem justa, e tênis tricolores da Nike. No mais claro, uma camiseta listrada de muitas cores, numa estampa horizontal. Bonitos ambos. O claro mais cheinho na barriga, o negro atlético, com torso de nadador, tipo ombros largos e cintura fina. Estavam sentados bem perto um do outro e conversavam, atentos apnas a si mesmos. O negro falava muito, gesticulava. O claro ouvia, apoiava o rosto na mão espalmada. Às vezes deitava a cabeça na mesa. Fazia um gesto de limpar lágrimas de quando em quando.

Era uma discussão, talvez uma briga. E pela proximidade, pelos toques no corpo do outro, não era difícil perceber que se tratava de um confronto de namorados. Às vezes os dois se abraçavam e ficavam um tempo muito juntos, depois voltavam e se afastar e a conversar. Percebi que estava olhando muito fixamente e voltei a atenção pra o meu texto. Mas de quando em quando arriscava uma olhadela para a cena a minha frente. Foi quando vi algo muito insólito.

Num momento em que se desfez um abraço demorado, selado por uma bitoca, percebi que o claro segurava na mão um pirulito vermelho. Discussão de relação com pirulito? Achei aquilo tão inusitado, que daí não consegui mais deixar de olhar a cena. Ainda bem que estava de boné, e meio que me ocultei sob a pala. Fiquei então saboreando a briga com pirulito. E notei que durante os argumentos do negro, o claro dava umas lambidas na bala espetada na ponta do palitinho. E às vezes, enquanto o negro argumentava e gesticulava, o claro enfiava o pirulito também na boca do outro. A atitude era infantil. Mas a linguagem corporal, os gestos, as lágrimas, proporcionavam era a leitura de uma conversa séria, difícil. Enfim chegaram a um acordo. Abraçaram-se mais longamente, o rosto do claro tinha uma expressão de alívio e ternura que me comoveu, o torso do negro, que eu via apenas de costas, movia-se nas contrações do choro. Um abraço demorado mesmo. Que terminou com um beijo, agora um beijo mesmo, breve, mas intenso, que espremeu boca contra boca. E durante todo esse tempo o pirulito estava à vista, erguido em riste, destacado, erguido pela mão clara, recortado nitidamente contra a camiseta preta do negro. Os dois então deram uma risada cansada, levantaram-se. E foram embora, revezando-se em lambidas no pirulito. Já testemunhei e já atuei também em um monte de brigas na minha vida. Briga com pirulito é a primeira vez que vejo. Que cena estranha.



Escrito por alberto guzik às 09h19
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Sobre crítica

Gerald Thomas escreveu ontem um mail pra mim, quando lhe enviei mensagem falando do texto que havia postado aqui sobre seus trabalhos. E ele manifestou o seguinte ponto de vista: “Tão bom te ver no papel de não-crítico. Tão saudável isso. Tão melhor isso”. E eu me pilho concordando com ele. Há cinco anos que deixei a crítica, não porque quisesse, já escrevi aqui, mas porque fui escorraçado dos jornais em que escrevia e, apesar de ter conhecimento de minha fama como um dos nomes mais prestigiados da crítica teatral brasileira nas últimas décadas do século 20, nenhum outro órgão de imprensa me chamou pra trabalhar, quando me vi no olho da rua. Tive que me virar de outras formas.

A crítica não me faz falta. Sinto saudade de ter tempo pra ver tudo que está em cartaz, de continuar a seguir as temporadas regularmente, como fazia quando era crítico militante. Mas o exercício da crítica em geral deixa as pessoas amarguradas ou tristes. Curioso, mas não lembro de um crítico plenamente feliz. Todos os que conheci, e muitos se tornaram excelentes amigos, eram sempre cercados por um halo de melancolia. Como o corvo de Edgar Poe. Não é fácil a gente exercer voluntariamente o papel de juiz da obra alheia. Esse exercício dói bastante, e nos isola de muitas formas. Hoje sou amigo de pessoas que eu não costumava ver. Porque em geral saia correndo dos espetáculos, pra não cruzar com o diretor ou com os atores. Lembro de um episódio super-constrangedor. Fui ver uma peça de um escritor que hoje é imensamente popular e paparicado. Não gostei da peça. Era fraca e melodramática no mau sentido. Assim que terminou a peça, aproveitei que estava bem perto da porta de saída da sala, e corri pra fora. Pois não é que o autor hoje famoso saiu correndo atrás de mim e me segurou pela manga da camisa (virtual, não literalmente, claro) pra me perguntar o que eu tinha achado. Eu tartamudeei alguma coisa, deixei mais que evidente que eu não tinha gostado, mesmo que não o tenha dito claramente, e fui embora frustradissimo porque meu intento de fugir da equipe daquela vez não tinha dado certo.

E porque eu fugia, vão vocês perguntar. Porque não tem nada mais chato do que um artista perguntando prum crítico depois do espetáculo o que ele achou. O cara vai escrever sobre aquilo, vai dar a cara dele a tapa pra avaliar o nosso trabalho. Deixa o cara trabalhar. Basta esperar um pouco e a opinião dele estará publicada. Eu nunca pergunto nada pra crítico, desde que voltei à cena. Quando e se eles querem falar, ótimo, ouço com muito prazer. Se não, tchau e bênção.

Estou melhor como pessoa desde que voltei para o palco. Estou muito mais pleno. Mais feliz. Com mais problemas de sobrevivência, também, mas vamos levando. O processo de criação faz muito bem. Quando penso em todas as tormentas que enfrentei desde 2002, quando voltei pra casa, ops, pro palco, percebo que todas elas me fizeram crescer. E agora vou atuar em uma peça do Gerald Thomas, ao lado do Sérgio Coelho, onde seremos dois críticos. Gerald está brincando de metametateatro. Estou muito muito curioso pra ver o que ele vai escrever pra nós, um ex e um atual críticos que são muito conscientes das responsabilidades e dos deveres desse penoso posto. E que bom que eu vou fazer essa peça fora das linhas da militância crítica. Na verdade, tenho a certeza de que todo o mundo do teatro deve estar muito curioso pra ver essa peça. Lindo isso.



Escrito por alberto guzik às 16h28
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Pérolas da Isabel do La Barca

Sua figura risonha e comunicativa é conhecida por todo mundo que circula pela praça Roosevelt. Sua risada solta também. Ontem fui almoçar no La Barca. Um cliente pra quem ela servia café, brincou com a Bel, dizendo que ela é sempre muito doce. E ela: "Ih, mas hoje eu estou meio amarga". E explodiu de rir, morrendo de achar graça. Hoje estive lá nos Satyros, logo depois do almoço, pra deixar uns papéis pro Rodolfo. Na volta pra casa, estou passando pela porta do La Barca e ouço a voz da Bel: "Ah, mas que namorar é muito bom, isso é". E de novo uma risada. A Isabel é de bem com a vida. Mesmo quando está de mal. Por isso já foi personagem de peça minha, "Na Noite da Praça", e agora é mencionada em uma cena da adaptação do Ivam das "Divinas Palavras". Podem crer, se a Isabel um dia lançar um livro de memórias, ela vai contar histórias que farão tremer as fundações de feio concreto armado da Roosevelt. Viva a Isabel!

Escrito por alberto guzik às 15h27
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Gerald Thomas 1

Fiz ontem o que queria ter feito na terça da semana passada, quando uma gripe feroz me abateu. Fui ver a dupla de espetáculos de Gerald Thomas, “Terra em Trânsito” e “Rainha Mentira”, lá no Teatro Sesc Anchieta. Saí ventando da última aula, pouco antes das nove, e cheguei ao teatro quando já soava o primeiro sinal. Os queridos Ivam e Rodolfo estavam lá também, assim como a Maria Ana, a Ângela Barros. Sentei-me entre o Dani Tavares e o Thiago Leal, amigões companheiros de Satyros. E começou o espetáculo.

No mesmo instante fui projetado em uma máquina do tempo, que me remeteu para 21 anos passados. Foi em 1986 que conheci Gerald. Nesse ano ele estreou em São Paulo, apresentando “Carmen Com Filtro”, que na primeira verstão tinha Antônio Fagundes e Clarice Abujamra no elenco. O então casal logo se desentendeu com o diretor, a montagem se desfez, a temporada durou pouco. E me deixou embasbacado com a linguagem radical que aquele jovem inventor cênico impunha ao palco.  Fui ver a encenação em seu primeiro e em seu último dia. A paixão glacial daquele Don José desarticulado nunca mais saiu de minha memória. Também não esquecerei de Bete Coelho, que fazia Micaela na primeira versão e dominava a cena com uma abrasadora luz própria. Gerald ara um potentíssimo encenador, um agudo crítico que não tinha e não tem medo de pôr o dedo nas feridas.

Acompanhei a carreira do encenador, atentamente, como crítico e como espectador, até o começo do século 21. Nesse tempo nos tornamos amigos. Nos vimos em Sâo Paulo, em Curitiba, no Rio. Muitas vezes almoçamos ou jantamos juntos. Foi quando, demitido (por razões que até hoje me soam absurdas) do “Jornal da Tarde” em 2001 e “Estado de S. Paulo” em 2002, os órgãos de imprensa em que havia trabalhado, fui forçado a abandonar a crítica. Acabei voltado para o palco, onde havia começado tudo no longínquo ano de 1949, aos cinco anos.

Retornei-me ator, e tornei-me diretor, professor, dramaturgo, escritor. Deixei de ter tempo de ver teatro. Nos primeiros dias da semana, dava, como dou até hoje, aulas. Nos últimos, ou estava ensaiando ou estava em cena. Para empobrecimento meu. Perdi e continuo perdendo, eu que fui um espectador profissional por 30 anos, temporadas inteiras de espetáculos. Enter esses, perdi os de Gerald Thomas. Eu e ele deixamos de nos ver. Perdemos contato. Depois de uma pane de computador em que perdi meu caderno de endereços e pastas de correspondência (perguntem se o gênio aqui faz backup de alguma coisa) , deixei de ter também seu e-mail. Para complicar, um mal-entendido gerado pela minha loucura acabou por nos distanciar. Até que nos reencontrarmos semana passada. E foi uma conversa intensa, plena e emocionante. O mal-entendido se desfez, nos despedimos com um abraço. Assim como ontem, eu o abracei longamente depois do espetáculo e nos despedimos com um beijo na boca. Eu amo o homem que é Gerald Thomas e amo sua arte. E fiquei profundamente feliz por reencontrar-me com ambos.



Escrito por alberto guzik às 11h40
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Geald Thomas 2

Havíamos planejado jantar juntos depois do espetáculo de ontem, mas problemas lá nos Satyros forçaram a uma mudança de planos. Não faz mal. Haverá outra ocasião. O importante foi que remergulhei na criação instigante, provocadora, fantasticamente poderosa de Gerald Thomas. Lamento não ter visto “Asfaltaram a Terra” e “Um Circo de Rins e Fígados”, as duas criações recentes que o artista trouxe a São Paulo. Mas reencontro tanto em “Terra em Trânsito”, que foi parte de “Asfaltaram a Terra”, quanto em “Rainha Mentira” a potência, o frescor, a indignação que sempre povoaram a obra de Thomas.

Com o tempo, ele se torna mais cáustico, mais conciso, mais elegante. Trabalha com o anti-realismo de maneira absoltamente precisa. Recusa qualquer acomodação. Se tem um encenador que não pega o público no colo nunca, esse é Gerald Thomas.

O cara faz a platéia pensar, incomoda, perturba as idéias. Nos tira da contemplação inerme pela força de suas farpas disparadas contra tudo com inteligência e habilidade. Mas ao mesmo tempo nos leva a contemplar um universo de beleza cênica absolutamente marcante e pessoal. Gerald é um diretor que tem marca d’água. Suas criações são inconfundíveis. A qualidade e a coerência de seu universo visual têm sido absolutamente notáveis e consistentes. Bem como o uso da música, sempre muito presente, dialogando com o texto, com a encenação. Acho que uma vez eu disse que Gerald era um artista plástico que se expressava usando o palco como tela. Continuo a pensar a mesma coisa.

“Terra em Trânsito”, nome que traz uma brincadeira verbal tipicamente geraldiana, é uma comedia alucinada. Começa com a voz gravada de Paulo Francis (na verdade uma imitação excelente de Gerald) fazendo um discurso sobre o estado da cultura brasileira. E avança para a crise da diva cocainômana, Fabi, que se prepara, pois o espetáculo vai começar. Ela dialoga com um cisne judeu, que a cantora alimenta para que um dia vire patê de fois em Estrasburgo.  O texto é um liquidificador de idéias, impressões, sensações plasmadas pela loucura da diva. Fabiana Gugli é uma atriz com absoluto domínio do seu instrumento de trabalho e está brilhante como a louca cantora que desmonta seu mundo e a si mesma à medida que chega sua hora de entrar em cena. E Pancho Capeletti faz um estupendo cisne. Uma montagem ácida e necessária. Que incomoda. Excelente.

Mas a porrada ainda estava por vir. Em “Rainha Mentira” Gerald faz um poderoso e doloroso acerto de contas com sua mãe, que morreu há exatamente um ano. Judia alemã, emigrada para o Rio, onde Gerald nasceu, ela teve a vida assombrada pela figura da própria mãe, a avó, que, louca, a culpava pelo suicídio do irmão mais velho. As imagens criadas por Gerald para narrar essa saga estão entre as mais poderosas que já elaborou. O elenco, liderado por Fabiana Gugli, que com extrema intensidade vive a mãe do artista da juventude à velhice, tem também os ótimos Pancho Capeletti, Fábio Pinheiro, Anna Américo e Luciana Fróes, que ocupa intensamente a cena como a insana avó. “Rainha Mentira” é uma dolorosa excursão que nos leva ao cerna da incerteza dos papéis sociais que representamos. Fala de essências e aparências. Gerald nos leva a acompanhar a trajetória dessa mãe fraturada com uma delicadeza, uma compaixão e uma impiedade arrepiantes. Dilacera-se e nos dilacera com uma elegância absoluta. Cheguei em casa e fiquei muito tempo na cama, de olhos abertos, observando as luzes da rua dançando no teto, pensando no que havia visto.

Não preciso dizer que acho que ver “Terra em Trânsito” e “Rainha Mentira” é obrigatório, preciso?

Escrito por alberto guzik às 11h39
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A falsa

Ela é falsa. Foi minha aluna na escola há uns anos, durante um semestre. Era bem fraquinha. Perdi a figura de vista e voltei a reencontrá-la circulando pelos Satyros, no começo deste ano. Me parece o tipo de pessoa que freqüenta os “points”. E a praça é um, sem dúvida. Ela é uma bela mulher, loura natural que de vez em quando tinge os cabelos de ruivo.

Alguém comentou comigo que está dando aulas agora em uma escola para atores aí pros lados de Santana. Toda vez que me encontra, faz questão de dar beijinhos. E me chama de “meshtre”, arrastando um s carioca, ela que é bem paulistana. Cada vez que ela me chama de “meshtre”, sinto que está zoando, fazendo troça.

Nunca me considerou mestre, e na escola era dada a falar mal das minhas aulas. Algum tempo antes de eu voltar a atuar, encontrei-a vez por outra no cinema ou no teatro, e ela fingia que não me via.

Mas já que retornei ao palco e ela me observa andando com Ivam, com Rodolfo, com todo o povo da companhia, tendo peça dirigida pelo Valcazaras, convivendo com o time de celebridades que transita pela Praça Roosevelt, a moça resolveu que é melhor me ver. E começou com essa história de me chamar de “meshtre”. Toda vez que me vê, sorri e pede o endereço do meu blog. Toda vez que ela faz isso, eu digo pra entrar no Google que achará o endereço rapidinho.

Nossa relação é permeada de sorrisos hipócritas. Percebo o esforço que faz para se comportar de um jeito amistoso. Mas sempre tem um sorriso fixo e artificial na cara quando me olha. Acho a moça de um cinismo atroz. Nem sabe ainda representar uma pessoa simpática, ou seja, como atriz continua fraquinha. Fez algumas peças que estiveram em cartaz na cidade, mas sem muito destaque.

Anda com uns meninos e meninas que parecem considerá-la uma “meshtra”, e dão muita risada do que ela diz. Devem ser alunos, talvez.  Um dia, sorrindo muito e me chamando de “meshtre”, ela me perguntou o que era preciso fazer pra conseguir um papel um uma produção dos Satyros. Disse-lhe que se quisesse eu a apresentaria ao Rodolfo e ele poderia testá-la. Já fez isso com outros ex-alunos meus. Um deles está no elenco de “120 Dias de Sodoma”. Acho que ela não se animou. Continua a circular peça praça, mas nunca mais voltou ao assunto. Muito menos eu. E cada vez que me encontra e vem com os beijinhos sorridentes, tenho a impressão de que vai me morder. Aff.



Escrito por alberto guzik às 09h01
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João Moreira Salles é um lúcido

"O Brasil perdeu importância e está tentando voltar a ter alguma, mas não sei se encontrou.Sem dúvida, o país tem menos rumo hoje do que na década de 50. A promessa do Brasil era maior."

"A gente podia imaginar que o país seria melhor na virada da década de 50 do que pode imaginar hoje o que será o país daqui a dez anos."

"Estou dizendo que as nossas ambições se tornaram mais medíocres. Disso não tenho dúvida."

(Entrevista à 'Folha de S. Paulo', 13 de agosto de 2007



Escrito por alberto guzik às 07h41
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Shakespeare

Estou trabalhando com os alunos mais adiantados o “Hamlet” de Shakespeare, na tradução musical e impetuosa de Millor Fernandes. Que grande trabalho o de Millor. E quanto mais estudo “Hamlet”, mais me convenço de que poucos dramaturgos, nos milhares de anos da história do teatro, chegaram mais perto, em uma obra, do cerne do ser humano. É um fascínio que se renova a cada leitura. E já perdi a conta de quantas foram. Uma palhinha de Shakespeare vertido por Millor:

 

“Fantasma:

Adeus, adeus, adeus! Lembra de mim. (Sai)

 

Hamlet:

Oh, gigantescas legiões do céu! Oh, terra! Que mais ainda?

Devo apelar ao inferno? Infâmia! Calma, calma, coração.

E vocês, meus nervos, não envelheçam de repente:

Me mantenham tranqüilo. Lembrar de ti!

Ah, pobre fantasma, enquanto a memória tiver um lugar

Neste globo alterado. Lembrar de ti!

Ouve, vou apagar da folha da minha memória

Todas as anotações frívolas ou pretensiosas,

Todas as idéias dos livros, todas as imagens,

Todas as impressões passadas,

Copiadas pela minha juventude e observação.

No livro e no capítulo do meu cérebro

Viverá apenas o teu mandamento,

Sem mistura com qualquer matéria vil. Sim, pelo céu!

Perniciosíssima senhora!

Ó traidor, traidor; desgraçado, sorridente traidor!

Minha lousa! – preciso registrar

Que se pode sorrir e, sorrindo, ser canalha.

Pelo menos, estou certo – aqui na Dinamarca.

Eis aí, tio, o teu retrato. E aqui está a minha divisa:

“Adeus, adeus! Lembra de mim”.

Está jurado.”



Escrito por alberto guzik às 18h39
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Rodolfo dirige

Foi um ensaio decisivo, o de ontem. Rodolfo é um encenador de habilidade tão grande quanto seu talento. Sua condução do processo criativo é cuidadosa e cheia de tato, embora também seja provocadora e carregada de muita ironia. Rodolfo não tem a menor complacência com os egos dos atores, que, vamos combinar, são sempre bem inflados. (Não se esqueçam de quem escreve isto é ator também. Sei do que estou falando.) Mas é um diretor cuidadoso e extremamente inteligente.

Creio que o centro nervoso de seu processo está na maneira como torna o elenco cúmplice de sua criação. De que forma? Permitindo que o processo se desenvolva como um processo. Ele não traz uma fórmula preconcebida, não joga o elenco em moldes de gesso que devem ser seguidos. Ao contrário, faz dos atores artífices fundamentais do conceito e da estética da encenação. É um encenador maleável, que se adapta às obras que encena com extrema flexibilidade. Nem por isso deixa de ter uma forte personalidade artística. Seus trabalhos têm uma marca autoral inconfundível.

Ontem tivemos um dia D no processo de “Divinas Palavras”. A alma do espetáculo foi capturada durante o ensaio. Estamos desde maio no processo, e só agora, a um mês e meio da estréia, tudo começa a se tornar mais definido e preciso. E chegamos a este momento com as principais características de cada personagem estabelecidas e definidas. Muitos dos atores já estão com partituras corporais bem elaboradas e desenvolvidas. E começamos a perceber os contornos dessa aventura.

Falta tudo. Nada está pronto. Mas Rodolfo conduz “Divinas Palavras” para o porto com segurança e inteligência. Democraticamente, ouviu todas as opiniões, deu liberdade a todos os atores para desenvolverem suas pesquisas, indicou caminhos, mas não cerceou nenhuma trilha. E agora começa a fechar o processo. Mas ao fim do riquíssimo ensaio de ontem, em que surgiram imagens fortíssimas que já evidenciam o clima das nossas “Divinas Palavras”, ele disse: “Quero que vocês trabalhem ainda mais com as improvisações, brinquem muito nos ensaios. Porque quando nós marcarmos a peça, isso acaba”. Então aproveitem agora, ele nos dizia. Pois feita a marcação, os ensaios deixam de ser criativos para se tornar técnicos, afinando e dando ritmo e precisão a tudo que foi inventado na primeira etapa. Com bonecos, animais, aves, experiências musicais, nós temos muito com que nos ocupar. O processo foi e está sendo doloroso, difícil, como tudo que vale a pena. Outros colegas, além de mim, andam somatizando, jogando em seus corpos os desafios lançados a nós. Mas é indiscutível. Sob a condução firme de Rodolfo, “Divinas Palavras” está brotando do chão da Praça Roosevelt.



Escrito por alberto guzik às 11h24
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Reencontro

Velhos amigos são uma bênção. Nos reencontramos ontem. A sós. Depois de muito tempo muito. Nos olhamos nos olhos. E as histórias brotaram. E velhas feridas foram tocadas e finalmente puderam cicatrizar. O balanço de perdas e danos foi feito. E o perdão foi pedido e negado, porque não havia necessidade dele. E o abraço de despedida, na madrugada fria de São Paulo, a cidade em que nos conhecemos e em cujas ruas e noites nossa amizade floresceu, foi um abraço de alô, de seja bem vindo de volta. Bendita vida que reserva esses presentes. Bendita vida. Porque este mundo é muito áspero, não costumo soltar bênçãos com freqüência, apesar de estar ensaiando o papel de um sacristão. Mas o evento da noite de ontem, desta madrugada, merece todas as brahás, as bênçãos judaicas. Fiquei comovido. Estou até agora.



Escrito por alberto guzik às 16h29
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Minha ignorância. E o Dia dos Pais

Neste domingo cinzento, Dia dos Pais, penso no meu, morto há 13 nos, enterrado no Cemitério Israelita do Butantã. Penso na nossa tormentosa relação. E penso em minha vida. E em descobertas recentes, que dizem respeito a outras histórias, e nada têm  ver com a figura paterna, e me fazem perceber que não me conheço bem e não sei de fato quem sou. Conheço algumas partes de minha pessoa, mas há abismos inteiros que nunca penetrei. Penso nos acasos que fizeram de mim este ser que concorda com Sócrates e tem de admitir: “Só sei que nada sei”. É assustador tomar consciência dessa ignorância toda. De qualquer forma, é encorajador sempre saber-se tão insciente. Posso tentar lançar alguma luz nas minhas trevas. Um processo estonteante. Mas viver causa vertigens. Feliz Dia dos Pais.



Escrito por alberto guzik às 11h03
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