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os dias e as horas - blog do alberto guzik


Voei

Bom dia! E tchau! Vou pra Congonhas pegar um avião pra CTBA. Ainda bem que o festival não é no Rio. Epidemia de dengue?! Pera aí, a gente tá em 1908 ou em 2008? Aff! Tou morrendo de saudade dos meus companheiros Satyros. E de estar em cena. Há quase dois meses sou um ASP, um ator sem palco. Palco causa dependência. Inté.

Escrito por alberto guzik às 05h46
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Bye bye

Ia ao cinema ver "O Banheiro do Papa", mas quando cheguei ao Unibanco da Augusta, havia uma fila tão fila que dei meia-volta. Entrei na livraria nova, que está linda! E daí saí pra andar. O filme fica pra volta. A noite estava abafada, não tive vontade de entrar num cinema cheio. Quando eu era criança, na sexta-feira santa os cinemas não funcionavam. Hoje não dá pra entrar neles de tão cheios. Outros tempos, minha gente, outros tempos. Agora voltei pra casa e vou aproveitar e trabalhar mais um pouco no livro novo. E por aqui me despeço dos senhores leitores que me honram acompanhando estes dias e estas horas. Viajo amanhã de madrugada para Curitiba, onde vamos apresentar "Vestido de Noiva" no domingo e na segunda, no Guairinha, dentro do festival. É a segunda vez que participo como ator do evento do qual fui curador por nove anos. E me despeço porque, como sabem os que acompanham este blog, eu não gosto de escrever se estou fora de casa. Tem uma coisa com o meu espaço de criar, e o fato de o blog estar associado a ele e ser de várias formas um reflexo dele. Como quase não uso imagens, um dia descreverei aqui o meu escritório, que é muito simples. É nele que gosto de estar quando escrevo ficção, ensaios, posts. Assim sendo, digo até logo. Terça-feira estarei de volta. Até lá, desejo a todos uma ÓTIMA PÁSCOA! Não abusem do chocolate, que faz mal.



Escrito por alberto guzik às 20h43
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Na obra

Todo dia avanço um pouquinho. Bem devagar toma alguma forma a hístória que estava tão incipiente. Começa longe daqui de SP, com um cara vendo um quadro em um museu estrangeiro. Esse personagem inicial já não é o único do livro. O cast foi ampliado até agora para cinco figuras, e em pouco vai se abrir mais. O protagonista foi batizado há dois ou três dias. Até então, eu não sabia qual seria o nome. Até que o segundo personagem que interfere na ação o chamou. Saiu assim, de um jato, a designação. E eu mantive. Vontade de personagem a gente não deve contrariar. A narrativa está em movimento. Caminha muito devagar. Mas caminha. Tenho trocado algumas figurinhas com amigos bem próximos. Por enquanto tudo está muito frágil, novinho, tenro. Qualquer movimento brusco pode matar esse broto de história. Tenho que tomar todo cuidado. Por isso não quero ainda abrir a questão de que trata o romance. Já adiantei que estou mexendo em vespeiro. Basta. Ando lendo atentamente blogs de amigos e de pessoas que pensam de uma maneira que me interessa conhecer, para definir meu personagem. Ando pelas ruas observando atentamente, ouvidos bem abertos. Capturo fragmentos de conversas, expressões, trejeitos. Observo executivos. E intelectuais. E saco muito casais conversando, andando, namorando, brigando, comendo. Não sei se vou usar alguma coisa disso tudo que venho anotando. Mas a minha obsessão está à solta. O tempo todo há um canal aberto em minha cabeça recolhendo dados destinados ao romance. U.C., são as iniciais do livro. Isso acho que não faz mal revelar. E assim, cada vez que eu escrever aqui U.C., os leitores já saberão do que estou falando. Como é bom criar como é bom criar como é bom criar.



Escrito por alberto guzik às 16h36
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W. B.

"Fazer uma pequena flor é um trabalho de eras."

"Seríamos tolos, se outros já não o fossem."



Escrito por alberto guzik às 10h09
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Vila Verde

A trupe dos Satyros está estreando hoje na Vila Verde "A Fauna", espetáculo produzido com o povo dessa área muito pobre de Curitiba. A produção é do Festival de Curitiba. Entrem nos blogues do Rodolfo e do Ivam e leiam as impressões deles sobre essa comunidade. E participem da campanha que o Ivam está lançando em suas Terras de Cabral. Eu vou participar. É uma gota d'água em um oceano de miséria. Mas se cada um fizer a sua parte, quem sabe?

Escrito por alberto guzik às 17h31
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Perdas

Com poucos dias de diferença foram embora dois britânicos notáveis. Primeiro o cientista e escritor Arthur C. Clarke. E agora o ator Paul Scofield. Além da sua importância pra ciência, Clarke foi um nome fundamental na ficção científica, e escreveu, entre outros, o texto que originou "2001: Uma Odisséia no Espaço", filme obra-prima de Stanley Kubrik. Scofield era um ator discreto, não cedeu aos encanto$ de Hollywood. E mesmo na Inglaterra, fez muito mais teatro que cinema. Mas além de "O Homem que não Vendeu sua Alma", filme que lhe valeu um Oscar em 1966, seu talento foi plenamente capturado por ninguém menos que Peter Brook na versão cinematográfica de um grande sucesso teatral do encenador e do ator:"Rei Lear", adaptado da tragédia de William Shakespeare. Veja ou reveja "2001" e o "Rei Lear" de Brook. Paga a pena.

Escrito por alberto guzik às 11h19
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Recebi por e-mail

Durante um debate em uma universidade dos EUA, o ex-governador do DF, ex-ministro da educação e senador Cristovam Buarque foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. Um jovem americano disse que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Antes de reproduzir a resposta de Cristovam Buarque, devo dizer que não sei bem qual minha posição a respeito desse assunto. Ouço os dois lados, fico aflito por não perceber onde está a verdade. A coisa certa é que a devastação da Amazônia é uma vergonha nacional. Me fascina Cristovam Buarque por sua inteligência, por sua lucidez. A argumentação da resposta dele é admirável. Eis aí:

"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto aAmazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
As Nações Unidas realizaram o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris,Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maiores do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Defendo a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo.
Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa.”



Escrito por alberto guzik às 10h03
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Gregório de Mattos

Além de ser um soneto magnífico, é o pedido de perdão divino mais sem-vergonha que eu conheço. Gregório de Mattos, eis um mestre.

"Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
de vossa alta clemência me despido;
porque quanto mais tenho delinqüido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,
a abrandar-vos sobeja um só gemido:
que a mesma culpa, que vos há ofendido,
vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada,
glória tal e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na sacra história,

eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
perder na vossa ovelha a vossa glória."



Escrito por alberto guzik às 23h51
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Imperial

Ela é grande, altiva, imponente. Foi minha aluna há décadas. E essas mesmas décadas, que dedicou ao trabalho duro, fizeram dela uma figura importante em seu meio. Não nos vemos há meses. Ela me encontra em um evento do qual é uma das organizadoras e no qual estive para acompanhar alguns amigos. Eu a vejo do outro lado do salão, mas há muita gente, não tenho vontade de atravessar toda essa povoada distância para cumprimentá-la. Lembro que faz algum tempo mandei a ela um e-mail, propondo um projeto de publicação, e ela não se dignou responder a mensagem. Não me incomodei por isso. Faz parte. Então, no fim da noite, na saída do evento, nossos caminhos se cruzam. "Estou precisando falar com você faz tempo", diz ela num tom definitivo, como se ignorasse meu e-mail e os números dos meus telefones. E fala assim, de chofre, sem bom dia, boa noite, como vai. "Estou precisando falar com você faz tempo. Coordeno o evento assim assim no lugar tal e tal e quero você pra mediar um debate." Seu tom é imperial. Eu lembro da menina que ela foi, linda, décadas atrás, interessante, inteligente, sedutora. Hoje é uma matrona romana que faz pedidos em tom de quem dá ordens. Pergunto em que dia o evento se realiza. "Na segunda-feira." "Segunda eu não posso. Dou aulas à noite." "Ah, que chato." "Mas em julho, nas férias, pode ser." "Tá bom, então eu vou guardar você pra julho." E se afasta sem desejar boa noite, sem trocar um beijo. Imperial. Então ela vai me "guardar pra julho", como se eu fosse um objeto que pode ser guardado e desguardado. Não fico aborrecido nem magoado. Acho graça. Gosto muito dela. É uma figura inteligentíssima. E sei por experiência de seis décadas de vida que toda pessoa assim altiva e imperial é bem insegura. Ela não age assim por um mau intuito. Então está bem. Estou "guardado" pra julho.

Escrito por alberto guzik às 12h56
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Camões

"O cisne quando sente ser chegada / A hora que põe termo à sua vida, / Harmonia maior, com voz sentida, / Levanta pela praia inabitada.

Deseja lograr vida prolongada, / E dela está chorando a despedida; / Com grande saudade da partida, / Celebra o triste fim desta jornada.

Assim, senhora minha, quando eu via / O triste fim que davam meus amores, / Estando posto já no extremo fio,

Com mais suave acento de harmonia / Decantei pelos vossos desfavores / La vuestra falsa fe, y el amor mío."



Escrito por alberto guzik às 12h26
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Blog do Ivam

Os Satyros estão em Curitiba. Montam na Vila Verde, uma comunidade carente da periferia da cidade, o espetáculo processional, "A Fauna", que será parte integrante da programação do Festival de Curitiba, que começa amanhã. Espetáculo processional é aquele em que o público forma uma espécie de procissão e vai acompanhando os acontecimentos que se desenrolam em vários locais diferentes. Eu não pude fazer parte do elenco de "A Fauna", mas vou para lá no sábado cedo. Vamos apresentar "Vestido de Noiva" no domingo e na segunda, no Guairinha, também conhecido como Teatro Salvador de Ferrante. Por conta das aulas, que não posso abandonar, vou ter que ir e voltar correndo do Paraná, e não poderei ficar pra ver "A Fauna", que não será apresentado nos dias em que estivermos lá com "Vestido de Noiva". Também pudera, parte do elenco é o mesmo! Meu querido Ivam Cabral postou hoje no blog dele uma historinha curtinha e lancinante sobre um ensaio lá na Vila Verde. Entrem e leiam. "Viver é muito perigoso."

Escrito por alberto guzik às 11h39
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Óbvio

O amor é cruel.



Escrito por alberto guzik às 18h40
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é hoje

"divinas palavras", que volta ao cartaz no dia 4 de abril, está no páreo esta noite. nora toledo, como atriz, e marcioo vinícius, como figurinista, concorrem ao shell. vou lá pra torcer por eles. evoé!!!

Escrito por alberto guzik às 18h14
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e vai

letra a letra, centímetro a centímetro, a coisa avança.

Escrito por alberto guzik às 18h13
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Sol e sombra

Depois de dias de chuva, eis o sol. Mas com ele chega a sombra lançada por alguém que eu amo, que sofre e que chama por mim. "Viver é muito perigoso", diz Riobaldo o tempo todo.

Escrito por alberto guzik às 09h29
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segunda

resultado de pesquisa que eu vi hoje cedo num telejornal: segunda-feira é o dia em que estatisticamente ocorrem mais casos de infarto. e o período em que eles são mais frequentes é pela manhã, no momento da volta ao trabalho. o corpo fala. 

Escrito por alberto guzik às 10h19
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Viagem

Sem sair de São Paulo, passei os últimos dias em Nova York. É lá que começa a coisa. Uma palavra depois da outra. Uma penosa palavra depois da outra.



Escrito por alberto guzik às 08h55
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Uma peça de Arrabal, ontem e hoje

Fui lá no Satyros 2 ver "O Arquiteto e o Imperador da Assíria", de Fernando Arrabal. Preciso, antes de escrever sobre a montagem do vigoroso Haroldo Ferrari Costa, dizer que assisti à primeira produção brasileira, em 1970. Estreou no Rio, no Teatro Ipanema, e depois veio pra São Paulo, onde fez carreira no Teatro Bela Vista, que eu adorava e do qual tenho saudade. Ivan de Albuquerque dirigia. No elenco, Rubens Correa e José Wilker. Vi a montagem três vezes, de tanto que amei aquele trabalho. Rubens foi um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos, sem dúvida alguma. E Wilker, recém-chegado do Ceará, era uma explosão de talento, uma promessa notável. Que nos palcos, infelizmente, ele depois não realizou. A química dos dois atores explodia em "O Arquiteto". E o espetáculo ficou em minha memória como uma aula de teatro onde se encaixavam com perfeição a dramaturgia, a encenação e as interpretações. Não lembro quem assinava o cenário, mas era também muito bom. Daí chegamos à montagem do Haroldo, um senhor ator, cara que eu adoro e por quem eu faço torcida a favor. Beto Bellini está no papel vivido por Rubens, o Imperador. E ao Paulo Vilhena coube fazer o Arquiteto, criado pelo Wilker. Na comparação, os dois se saem superbem. Atiram-se de cabeça na montagem muito física, sensual, doentia, criada pelo Haroldo. Nesse sentido a produção atual, muito bem servida também pela trilha sonora do Ivam e pela luz do Rodolfo, não fica a dever em nada à histórica encenação de Ivan de Albuquerque. Mas eu deixei o teatro, depois de quase duas horas de espetáculo, me perguntando por que eu não tinha me apaixonado. A montagem de 1970 durava pelo menos 40 minutos a mais, com intervalo e tudo, e eu fui lá ver três vezes. Esta montagem, mais sucinta, vi uma vez e senti que já está bem. Por quê? Com certeza, devo reconhecer, porque então eu era, todos éramos, 38 anos mais jovem, muito mais propenso a me apaixonar. Mas sem dúvida também porque então o texto de Arrabal me pareceu mais vivo, mais intenso, mais urgente. A peça é uma grande metáfora em que Arrabal, escritor que misturou o barroco espanhol com o surrealismo, o que resultou em seu "teatro pânico", coloca o homem ocidental, o Imperador, como sobrevivente de um desastre aéreo em uma ilha deserta (lembrei de "Lost"; será que os roteiristas conheciam a peça?), onde encontra o Arquiteto, um selvagem a quem ele "ensina" sua cultura, lingua e mitos. Aos poucos, segredos vêm à tona, que culminam num julgamento. Enfim processa-se uma execução, um ritual de antropofagia e tudo conclui/recomeça com uma inversão de papéis. Isso, que me parecia tão vibrante e urgente há 40 anos, hoje me soa um bocado desvitalizado. Essas metáforas todas, que Haroldo desnecessáriamente intensificou na montagem com carcassas de aparelhos de tevê, ficaram envelhecidas. Arrabal não tem mais a projeção e relevância que conquistou nos anos 60 e 70. Depois do fim do regime franquista, que ele combateu com todas as forças, corajosamente, surgiu uma estética que parece ter lançado sombra em seu estilo prolixo, discursivo, retórico. As imagens que ele lança no ar são agora, ao menos para mim, bem pouco flamejantes. A direção de Haroldo, talvez reverente demais ao texto, não encontrou um jeito provocador, instigante, de lidar com essa massa de imagens. Daí que o seu espetáculo é legal, mas não arrebatador. Dá gosto ver dois bons atores, e o Bellini eo Vilhena são bons atores, bem dirigidos. Isso me deu prazer. Mas como é estranho: Arrabal há 40 anos me aparecia como um dos nomes que cresceriam na história do teatro. Sentia que ele poderia atingir a estatura de um Pirandello, de um Brecht. Bem, eu estava enganado. Ele segue sendo Arrabal, mas isso me parece agora bem pouco impactante.



Escrito por alberto guzik às 18h24
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William Blake

"O homem se enclausurou a tal ponto que apenas consegue enxergar através das estreitas frestas de sua gruta."

Mas tem gente que escapa da caverna. Leiam os blogues "De Olhos sempre Abertos" e "Heimweg", e verão do que estou falando.



Escrito por alberto guzik às 10h04
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